Registro de fotos de momentos do periodo em que Macau fez parte de nossas vidas. Um álbum de saudades e também de muitas experiencias felizes.
sábado, 15 de outubro de 2022
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Revista Macau 2016
NA ESTANTE: O PROBLEMA DOS TRÊS CORPOS
Onde está o futuro da China — Trilogia O Problema dos Três Corpos é galardoada com o maior prêmio da ficção científica mundial

Márcia Schmaltz*
Para grande parte dos leitores, a ficção científica é um gênero literário pouco conhecido. Muitas vezes pode gerar estranhamento, pela falta de familiaridade do leitor com o cenário e o contexto engendrado por uma narrativa fora da lógica do tempo atual. A sensação de abandono que os personagens enfrentam é transmitida para o leitor e se constitui como uma das maiores características desse gênero. Dessa forma, pois, a ficção científica exige de seus apreciadores certa paciência até que a ambientação ocorra. Em 1903, a intelligentsia chinesa tem o primeiro contato imediato com a ficção científica através da publicação das traduções de Viagem ao Centro da Terra e Da Terra à Lua de Júlio Verne.
A ficção científica chinesa tem galgado posição de destaque na cena literária internacional. Em 2015, Liu Cixin foi galardoado com o prêmio Hugo na categoria de melhor romance pela trilogia O Problema dos Três Corpos (Editora Tor Books, EUA, 2014) e, em 2016, Hao Jingfan obteve o prêmio na categoria micro conto. O prêmio Hugo é auferido anualmente pela Sociedade Mundial de Ficção Científica, desde 1955, e se constitui como a mais alta distinção no gênero da ficção científica e fantástica. O prêmio é uma homenagem ao Hugo Gernsback, fundador da “Amazing Stories”, primeira revista do gênero na América, em 1926.
Na trilogia O Problema dos Três Corpos, Liu apresenta o povo chinês em contato e em guerra contra uma civilização alienígena. O autor cria outras civilizações por toda a galáxia, que convivem em um esquema da lei da selva. A longa distância entre esses mundos previne contra encontros indesejados, mas, mesmo assim, se generaliza a crença de que todo ser estranho é um perigo eminente.
A trama tem início na Revolução Cultural (1966-1976), momento em que a China planeja secretamente encontrar extraterrestres antes dos EUA e da URSS. Malograda sorte, o gigante asiático obtém, ao invés de uma resposta, uma advertência: “Faça o favor de não entrar em contato connosco, porque a nossa raça é sanguinária. Eu sou a única exceção”. A destinatária desse aviso é uma jovem cientista cujo pai tinha acabado de ser espancado até a morte pela Guarda Vermelha. No auge de seu ódio ao regime, ela responde à mensagem com um: “Não nos importamos”. A mensagem evoca a violência e os alienígenas começam o seu plano de conquista da Terra. Trinta anos mais tarde, outro cientista chinês descobre aquela civilização na constelação do cocheiro, cujo planeta sofre efeitos negativos dos três sóis. Essa civilização alienígena despacha uma frota de navios estelares para conquistar a Terra, cuja chegada está prevista em quatro séculos. Passada a Revolução Cultural e a derrubada do Muro de Berlim, o mundo entra na onda da aldeia global. Contudo a ameaça alienígena está a caminho. E assim conclui o primeiro volume da trilogia. Em consequência da ação da jovem cientista, a Terra tem de iniciar a preparação para a guerra contra a iminente invasão alienígena. Os extraterrestres conseguem impedir o desenvolvimento tecnológico da Terra através de escâneres cerebrais, que também servem para investigar o comportamento humano. Felizmente entraves técnicos dificultam a interpretação desses dados obtidos. Para manterem-se livres do controlo alienígena, os humanos iniciam a execução de um plano secreto. Pessoas supertalentosas são selecionadas e convidadas para lutarem contra o bloqueio mental. Como os agentes controlados pelos alienígenas estão em todos os lugares e são difíceis de serem identificados, os participantes do projeto necessitam — além de se proteger a si próprios, de desenvolver estratégias criativas para furar o bloqueio. Como é de se esperar, todos os supertalentos acabam por ser controlados pelos alienígenas. A única exceção são os chineses.
A intricada trama literária demonstra que a mensagem da existência da Terra no universo permite que todas as criaturas saibam de nossa existência e faz com que outras espécies alienígenas também encontrem e cheguem ao sistema solar. Assim, duas superespécies entram em guerra, próxima da Terra. O segundo livro da série encerra com as naves espaciais alienígenas destruindo a linha de defesa espacial da Terra. Pode essa estratégia salvar a humanidade? Embora toda a tensão envolvida nesta altura do enredo, o que mais chama a atenção é a preocupação com o futuro da China. É de interesse a questão da persistência do Partido Comunista Chinês e o que os chineses contemporâneos percebem da sua realidade nos dias de hoje. O desenlace da trama já está disponível em língua inglesa e leva aos leitores a pensar sobre quais os propósitos de todo o desenvolvimento tecnológico e científico para a melhoria da qualidade de vida da população. No cerne da narrativa, encontramos uma interessante reflexão de um velho dilema, que se encontra entre o isolamento e a abertura do mundo chinês em relação à cultura estrangeira.
*Residente pós-doutoral da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

Mais sobre a obra:
Nome da série: San ti
《三体》 / The Three-Body Problem
《三体Ⅱ·黑暗森林》The Dark Forest
《三体Ⅲ·死神永生》/ Death’s End
Autor: Liu Cixin (刘慈欣)
Tradutores: Ken Liu(刘宇昆)(vol. 1 e 3) e Joel Martinsen(乔尔·马丁森)(vol. 2)
Editora: Kehuan shijie 科幻世界 / Tor books
Ano: 2006-2010 (chinês) e 2016 (inglês)
Veja aqui a capa em inglês
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Zhangjiajie o Avatar de Hunan
O aeroporto Flor de Lótus de Zhangjiajie, importante cidade da província de Hunan, surge sob nossos pés, após a rápida descida das escadas da pequena aeronave Air China, as 13h e 45 min com seus 17°C e bastante umidade. Sempre que uma caminhada ocorre em uma área aberta nos aeroportos chineses tudo fica mais charmoso.
O atraso do voo fez com que a nossa passada adquirisse o ritmo de uma marcha atlética ao ar livre, pois nossos anfitriões, senhor e senhora Liu, já nos miravam da área de desembarque sacudindo os braços para o alto e pulando num pé só, nos deixando sem chances de ir ao toilete, fazer selfs ou postais.
O aeroporto Flor de lótus pode se dizer que é inusitado, pois se localiza entre montanhas, cobertas de neblinas que nos acompanhariam por todo o feriado da páscoa de 2015.
O trajeto de pouco mais de 30 minutos, até ao distrito de Wulin foi constituído por uma paisagem rural, onde atravessamos algumas pontes, montanhas e um túnel de 4 km de extensão. Os tradicionais buzinaços nos acompanharam por aqueles 38 km e muitas vezes substituíam os sinais ofensivos ou luminosos.
Na China o excesso de velocidade não parece ser o maior problema, e sim as outras regras que não são tão respeitadas. Todas as estradas por mais desertas ou distantes que sejam, sempre têm controladores eletrônicos de velocidade. A buzina é usada em demasia e mesmo soando selvagem acaba sendo mais tranquilo que as freadas e gritos ofensivos. No percurso, fomos tendo um pouco mais da paisagem da cidade que tem uma população de 1,6 milhão e 33 etnias.
Ao chegarmos na pousada de Xibujie, fizemos o checking rápido, tranquilo, acompanhado pelo Sr. Liu, o nosso anfitrião. O distrito Wulin, onde estava localizado o nosso hotel, era nada mais que o coração do turismo em Zhangjiajie, com um cenário natural espetacular.
Caminhando de nosso hotel, em direção sudeste, por mais ou menos 1km, chega-se ao lago Baofeng. Uma das entradas da reserva geográfica natural de Zhangjiajie, que tem em seus 391 km² um relevo de carste de grande beleza com pináculos que despontam de uma densa floresta subtropical com mais de 500 espécies de árvores, entre as quais a Metasquoia glytostroboides, que se acreditava extinta, mas que em 1941 descobriram-se mais de mil árvores dessa espécie, o que constitui uma das maiores descobertas botânicas do mundo. A árvore passou então a ser chamada de fóssil-vivo. A metasequoia, que cresce rapidamente, fornece madeira de boa qualidade, excelente material para a construção. Esta árvore é muito útil tanto para a arborização como para a ornamentação dos jardins. Depois da revolução chinesa em 1949, o número dessa espécie multiplicou-se. Atualmente é largamente cultivada tanto na China, como ao redor do mundo, mas permanece em estado crítico de conservação no meio natural, segundo a IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais). A reserva também é um refúgio para animais como salamandras gigantes , macacos rhesus e grande variedade de pássaros.
À noite num restaurante bem próximo de nosso hotel, aconteceu o nosso primeiro banquete oferecido pelo casal Liu, que nos recepcionava. O cardápio: sopa de galinha com ovos, omelete de raiz selvagem, carne moída com arroz glutinado e frito como milanesa, acrescido de amendoim e mais um prato feito de massa frita feita de verdura local provavelmente também selvagem e para não cair no esquecimento a bebida local que parece um absinto feito de destilado de arroz conhecido por Mijiu com graduação alcoólica de 48%, uma verdadeira bomba relógio.
Nosso segundo dia e primeira manhã acordamos às 7h com um café bem típico chinês que muitas vezes não desperta simpatias em ocidentais mais conservadores e ou principiantes em turismo por essas bandas. O ensaio para a aventura do dia começou com ovo cozido, mantou, baozi, com seus recheios apimentados, e sopa de arroz sem tempero algum conhecido por Conjie e mais a inevitável massa.
Às 7h45min, saímos para caminhar em direção oeste. Uns 1.000m passando por ruas, passeios, ciclovias, vias para cegos e seus fios escondidos para chegar à porta da montanha Tianzi do parque. Com os passes em mãos, pegamos o ônibus elétrico lotado e pudemos descansar pelo caminho de 6 km até uma altitude de mil metros e, é claro, que era uma fila de ônibus passando por matas, rios, lagos e montanhas, com uma multiplicidade de tons de verde.
No fim da linha entramos em uma fila de mais de 3 horas de espera. Uma multidão espremida e descontrolada, de forma inusitada, aos tapas, correrias e empurrões tentava seu lugar em um dos três elevadores, que sobem por mais de 300 metros, com 50 passageiros, rente a montanha, em 118 segundos. Ao chegar lá em cima, fomos brindados com um cenário de picos de pedra, que mais se parecem com cumeeiras de florestas de pedras, feito uma tropa de pedras. Não é à toa que foi escolhida como o cenário do filme "Avatar". Fomos rodeados por uma paisagem fria e úmida do parque geográfico natural de Zhangjiajie.
O retorno esgotante da montanha se deu por uma longa escadaria, montanha abaixo, e uma caminhada por quase três horas.
Por sorte, vieram após um revigorante e quente fast food chines típico com muito chou doufu (tofu fedorento), churrasco de ovelha, batata doce (alaranjada), castanhas cozidas em meio pedrinhas pretas numa wok.
Um domingo de páscoa diferente, pois nada lembrava tal data. Começamos o dia às 7h, abastecidos com o desjejum do hotel igual ao dia anterior. Uma manhã cinzenta, chuvosa e fria desencorajava o deslocamento até às grutas impressionantes de Huanglong Dong (Caverna do dragão amarelo), mas sabíamos que, após a chegada, ficaríamos abrigados da chuva. Como sempre, mesmo com um clima nada convidativo, entramos no parque durante uma grande pancada de chuva para encontrar outro grande contingente de turistas que esperavam em fila tranquila e que andou até bem rápida. Na maioria dos locais de turismo na China, há sempre uma grande distância entre o portão de entrada até a área nobre. Havia muitas grutas na caverna e para entende-las pegamos várias "caronas" de grupos de turistas, ciceroneados com guias bem treinados. Assim, percorremos mais de 11 km, subimos e descemos mais de 1500 degraus, mais um percurso de barco pelo rio subterrâneo, totalizando uma caminhada de quase 3 horas. Todo o trajeto é ricamente iluminado, mas de gosto, por vezes, duvidoso.
A beleza dessas grutas é indescritível, com sua estalactites e estalagmites de milhões de anos. Raras vezes suas extremidades se aproximam ou se tocam. Para decifrar a sua simbologia, nada melhor que a descrição, muito detalhada dos guias. Suas formas e silhuetas sempre ou quase são comparadas com personagens ou símbolos relevantes do universo imagético chinês.
Na saída das grutas degustamos chá preto em uma aconchegante casa de chá. O heicha (em chinês) também é chamado chá fuzuang, devido à sua cor escura. Ele é produzido principalmente nas províncias de Hunan, Hubei, Yunnan e Sichuan. Na China existem muitos tipos de chá, classificado de acordo com o tempo de sua fermentação: branco, amarelo, verde, vermelho e o preto. O que garante a preferência dos apreciadores, sem duvida, é a adição de Jinhua no seu processamento. Estudos demonstram que suas propriedades possuem alto benefício para o corpo humano. O heicha (chá preto) é uma iguaria de alta fermentação com sabor marcante e aroma peculiar. O relato de sua história nos reveleu histórias de guerras, piratarias, roubos e invejas principalmente, por parte da coroa inglesa. Entre xícaras e chaleiras ouvidos atentos aos relatos de suas ricas funcionárias, em trajes típicos das casas de chá, estávamos aquecidos, secos, relaxados, descansados e informados. O digestivo e delicioso chá preto deixou uma fome nos gaúchos, como depois de sorver duas térmicas de chimarrão. Partimos para o almoço ao redor do parque num restaurante fora do eixo turístico. Apreciamos meus prediletos ovos de mil anos, sopa de cabeça de peixe e um ensopado de frango. Depois, fomos para mais um tracking e curtir a paisagem do rio Yang-tsé, algo que qualquer um não pode deixar de fazer. Essa noite não tivemos companhia do casal e terminamos numa caminhada no comércio, no entorno do hotel. Bares com música chinesa ao vivo, lojas de instrumentos e artesanatos onde adquirimos bolsas que segundo a proprietária seria confecção do própria.
Segunda-feira pós páscoa sem coelhos
Saímos de ônibus, do condado onde estávamos hospedados, depois do habitual desjejum, para o centro da Zhangjiajie. No primeiro instante, a visão do Rio Li (Li Jian) envolta por uma cidade de avenidas largas e um comércio tranquilo, talvez pela hora, e o centro circundados pela recortadas montanhas de carstre. Uma paisagem diferente onde as ruas terminam parecendo entrar nas montanhas verdes e rochosas. O trajeto de ônibus terminou muito próximo de nosso destino que era
Cable Tianmen (o termo é mistura de inglês e mandarim que seria mais ou menos "O Teleférico da montanha Porta do Céu") com seus carrinhos de design moderno e colorido para seis pessoas. O nosso era vermelho, que durante o percurso alternávamos os bancos pois ficávamos frente a frente de 3 pra lá 3 e inevitavelmente os nativos suspeitaram por nossas risadas que entendíamos seu engraçado dialogo mesmo que o dialeto deixasse Márcia com menos agilidade. O sotaque daquela região apaga alguns dos fonemas e até para o meu "chinês instrumental" ficava perceptível. Foram mais de 8km, 40 min de uma subida até o topo da montanha de 1560m. A neblina e o frio faziam os vidros suarem por dentro.
O dia esvai-se muito rápido, quando se passa subindo e descendo montanhas, seja de teleférico, seja de elevador, ou escadarias e escadas rolantes.
Retornamos cansados e com frio. Passamos rapidamente em nosso hotel para trocar por roupas secas e varados de fome e com muita sede por um chá quentinho invadimos o Restaurante Impressão de Hunan do Oeste na verdade o local é parada obrigatória pela organização, pela bela cozinha, musica tipica ao vivo, pela comida com seus sabores, cores e cheiros.
Cardápio:
* Chá de Trigo
* Qiaomai
* Juebaba (uma raiz típica masseirada), faz-se uma farinha dela com uma consistência borrachoide vulcanizado mais pimenta vermelha em pó que acrescentavamos na hora de comer
* Verdura Yajiaoban e alho
* Frango Caipira
* Cogumelos selvagens
Bem, a bebida foi um presente raro que nossos amigos ofereceram em uma garrafa lacrada de uma antiga produção de mijiu que eles não deixaram de ressaltar que era uma bebida de alto preço e alta gradação alcoólica. Reza a tradição que você não pode deixar de beber com os anfitriões e aí a noite ficou quente, e a garrafa e seu néctar foram completamente consumidos enquanto ouvíamos atentamente o Sr. Liu contar uma história sobrenatural ocorrida em 2003, com uma estátua de Mao Tsé-tung. O transporte pela longa estrada entre a montanha Jingang e Nanchang num caminhão que pifou num fim de tarde e parou em Jiangxi ficando a noite toda ao relento sob intensa chuva e frio além da guarda ostensiva dos envolvidos pois afinal contas Mao é ainda o grande timoneiro o herói nacional que nasceu naquela região. Na manhã seguinte, sem a intervenção de mecânico ou picareta local, o veículo funcionou como novo. Os envolvidos, a população local e os dirigentes locais atribuem até hoje como um milagre da Revolução já que Mao é a grande imagem da revolução e da região.
Não dá para esquecer das musicas tocadas por um artista com trajes típicos, tocando dois instrumentos de sopro, o hulu e o shen.
Terça Feira 8 de abril de 2015
Despertamos as 6h30min. Depois de arrumarmos as malas, saímos do hotel. Sem antes, é claro, de enfrentarmos o café radical de todas aquelas manhãs. Às 9h30min, estávamos sentados no ônibus em direção norte para a cidade de Fenghuang. O percurso de quatro horas foi repleto de enormes pontes além de túneis também não menores. Em seu entorno, vales e precipícios de tirar o fôlego, com suas plantações de arroz ao redor dos vilarejos em uma paisagem bela por demais. Nosso ônibus tinha um serviço interessante, onde nosso fiscal era polivalente pois as funções de guia, vendedor de mapas, carregador de malas, dicas de hotel e passeios além garantir passagens para seu retorno nos próximos dias - era tudo com ele. Confirmava tudo por telefone e também ao vivo e à cores.
Dirigímo-nos ao hotel pousada Pessoal de Fenghuang na rua marginal norte à beira do Rio Tuo. Percorrendo as ruas estreitas dessa cidadela milenar amuralhada, chegamos à pousada. O proprietário, um senhor gordo careca e bonachão, recepcionou-nos com um largo sorriso. Forneceu-nos toalhas e roupas de cama, nos apresentou ao nosso aposento, rente ao rio. A edificação do hotel era toda em madeira e bem simples. Causou-nos uma sensação ótima de uma viagem à tempos remotos. Ficamos deslumbrados com aquele quarto onde a sacada e a janela voltadas para o rio se abriam para as mágicas cenas de uma China interior, tradicional e típica das aldeias ribeirinhas. Com suas pontes, pontilhões, barcos, sampanas e chineses vestidos de forma típica que davam ao local uma visão cinematográfica. O bairro onde nos hospedamos é estritamente turístico um patrimonio cultural onde somente existem pousadas, restaurantes e comércios de todo tipo faziam parte daquela redondeza. Somente era possível acessar os arredores quem estivesse hospedado, nativo ou fosse trabalhador daqueles estabelecimentos.
Saímos para a clássica caminhada de reconhecimento do entorno. Andamos em meio de construções e passeios antigos. Até nos depararmos com uma venda de pimentas variadas. Eram pimentas secas, em molho, vermelhas e pretas. O simpático e antigo casal que em rodízio com seu filho administravam o negócio, nos apresentaram os detalhes da sua produção. Soubemos através deles, que dentro da cidadela amuralhada, os antigos habitantes lá não moram mais. Suas casas eram hoje todas comerciais e vivem próximo da localidade, deixando ali apenas seu negócio. Compramos algumas lembranças picantes de fazer qualquer mortal chorar de emoção ou saudade mesmo longe e sem motivos.
Almoçamos no restaurante o Embaixador (Dashi Fandian), onde comemos como diplomatas, pagando um preço como plebeu. A dica foi do nosso senhorio da pousada falando tipo assim: "caminhem pra aquele lado, até sair da muralha, assim estarão fora da área dos turistas onde o sabor e o preço são melhores e vocês vão ver e saborear". Os três pratos típicos que devoramos eram peixe com doufu, capim limão, gengibre, raiz de lótus, alho e cebolinha verde, mais carne defumada (larou), com broto de bambu. Tudo com fortes pimentas vermelhas e arroz para apaziguar o fogo oriental. Sentados no popular restaurante chamado de Embaixador sentindo-se um diplomata tomando um chá preto nobre, olhando pela vidraça vendo uma senhora da etnia Tujia, com seu turbante negro amarrado à cabeça e uma criança em suas costas em um cesto. Essas seguem sua tarde e sua rotina vendendo flores e talvez sonhos que fazem a diferença nas cores e dores daquela parte do dia que quase já é noite. Impossível seria ficar e aguardar a última xícara de chá sem tentar um registro mesmo que sem foco para ter na memória.
O restante da tarde passamos ao longo do rio Tuo, onde uma muralha margeia e faz com que se imagine o rio como um fosso para proteger aula cidade conservada deixando seu aspecto de séculos passados. as casas transformadas em hotéis, pousadas, bares e casas de chá. Os moradores podem transitar livremente pelas portas do sul, norte e leste. Já os turistas podem adentrar pelo portão norte, se apresentar a chave do hotel e o seu recibo de pagamento da diária. Perambulando de volta à hospedaria, dentro da muralha e próximo à banca de vendedores de pimenta, descobrimos um bar e restaurante maravilhoso. O casario era de uma família tradicional local, de mais de trezentos anos chamada Yin. Os simpáticos proprietários estavam tocando jazz, em frente a uma fogueira. Ficamos assistindo com entusiasmo e logo fizemos amizade com eles. Um casal jovem de Beijing radicaram-se na cidade. O rapaz tocava djambe. Outro chamado de Daxiong (Grande Urso) era um devoto budista, gordão e muito simpático. Acabamos nos enturmando e tocamos música até o amanhecer.
Todos os nativos tem uma certa vantagem com o turismo, seja no comercio, serviços ou até mesmo vestidos tipicamente cantando ou dançando como Miao ou Tujia, minorias étnicas principais da região. A cidade de Fenghuang com seus 400 mil habitantes e suas 28 minorias étnicas, nossas fotografias e curtas rechearam nossa tarde de charme e graça.
O atraso do voo fez com que a nossa passada adquirisse o ritmo de uma marcha atlética ao ar livre, pois nossos anfitriões, senhor e senhora Liu, já nos miravam da área de desembarque sacudindo os braços para o alto e pulando num pé só, nos deixando sem chances de ir ao toilete, fazer selfs ou postais.
O aeroporto Flor de lótus pode se dizer que é inusitado, pois se localiza entre montanhas, cobertas de neblinas que nos acompanhariam por todo o feriado da páscoa de 2015.
O trajeto de pouco mais de 30 minutos, até ao distrito de Wulin foi constituído por uma paisagem rural, onde atravessamos algumas pontes, montanhas e um túnel de 4 km de extensão. Os tradicionais buzinaços nos acompanharam por aqueles 38 km e muitas vezes substituíam os sinais ofensivos ou luminosos.
Na China o excesso de velocidade não parece ser o maior problema, e sim as outras regras que não são tão respeitadas. Todas as estradas por mais desertas ou distantes que sejam, sempre têm controladores eletrônicos de velocidade. A buzina é usada em demasia e mesmo soando selvagem acaba sendo mais tranquilo que as freadas e gritos ofensivos. No percurso, fomos tendo um pouco mais da paisagem da cidade que tem uma população de 1,6 milhão e 33 etnias.
Ao chegarmos na pousada de Xibujie, fizemos o checking rápido, tranquilo, acompanhado pelo Sr. Liu, o nosso anfitrião. O distrito Wulin, onde estava localizado o nosso hotel, era nada mais que o coração do turismo em Zhangjiajie, com um cenário natural espetacular.
Caminhando de nosso hotel, em direção sudeste, por mais ou menos 1km, chega-se ao lago Baofeng. Uma das entradas da reserva geográfica natural de Zhangjiajie, que tem em seus 391 km² um relevo de carste de grande beleza com pináculos que despontam de uma densa floresta subtropical com mais de 500 espécies de árvores, entre as quais a Metasquoia glytostroboides, que se acreditava extinta, mas que em 1941 descobriram-se mais de mil árvores dessa espécie, o que constitui uma das maiores descobertas botânicas do mundo. A árvore passou então a ser chamada de fóssil-vivo. A metasequoia, que cresce rapidamente, fornece madeira de boa qualidade, excelente material para a construção. Esta árvore é muito útil tanto para a arborização como para a ornamentação dos jardins. Depois da revolução chinesa em 1949, o número dessa espécie multiplicou-se. Atualmente é largamente cultivada tanto na China, como ao redor do mundo, mas permanece em estado crítico de conservação no meio natural, segundo a IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais). A reserva também é um refúgio para animais como salamandras gigantes , macacos rhesus e grande variedade de pássaros.
À noite num restaurante bem próximo de nosso hotel, aconteceu o nosso primeiro banquete oferecido pelo casal Liu, que nos recepcionava. O cardápio: sopa de galinha com ovos, omelete de raiz selvagem, carne moída com arroz glutinado e frito como milanesa, acrescido de amendoim e mais um prato feito de massa frita feita de verdura local provavelmente também selvagem e para não cair no esquecimento a bebida local que parece um absinto feito de destilado de arroz conhecido por Mijiu com graduação alcoólica de 48%, uma verdadeira bomba relógio.
Nosso segundo dia e primeira manhã acordamos às 7h com um café bem típico chinês que muitas vezes não desperta simpatias em ocidentais mais conservadores e ou principiantes em turismo por essas bandas. O ensaio para a aventura do dia começou com ovo cozido, mantou, baozi, com seus recheios apimentados, e sopa de arroz sem tempero algum conhecido por Conjie e mais a inevitável massa.
Às 7h45min, saímos para caminhar em direção oeste. Uns 1.000m passando por ruas, passeios, ciclovias, vias para cegos e seus fios escondidos para chegar à porta da montanha Tianzi do parque. Com os passes em mãos, pegamos o ônibus elétrico lotado e pudemos descansar pelo caminho de 6 km até uma altitude de mil metros e, é claro, que era uma fila de ônibus passando por matas, rios, lagos e montanhas, com uma multiplicidade de tons de verde.
No fim da linha entramos em uma fila de mais de 3 horas de espera. Uma multidão espremida e descontrolada, de forma inusitada, aos tapas, correrias e empurrões tentava seu lugar em um dos três elevadores, que sobem por mais de 300 metros, com 50 passageiros, rente a montanha, em 118 segundos. Ao chegar lá em cima, fomos brindados com um cenário de picos de pedra, que mais se parecem com cumeeiras de florestas de pedras, feito uma tropa de pedras. Não é à toa que foi escolhida como o cenário do filme "Avatar". Fomos rodeados por uma paisagem fria e úmida do parque geográfico natural de Zhangjiajie.
O retorno esgotante da montanha se deu por uma longa escadaria, montanha abaixo, e uma caminhada por quase três horas.
Por sorte, vieram após um revigorante e quente fast food chines típico com muito chou doufu (tofu fedorento), churrasco de ovelha, batata doce (alaranjada), castanhas cozidas em meio pedrinhas pretas numa wok.
Um domingo de páscoa diferente, pois nada lembrava tal data. Começamos o dia às 7h, abastecidos com o desjejum do hotel igual ao dia anterior. Uma manhã cinzenta, chuvosa e fria desencorajava o deslocamento até às grutas impressionantes de Huanglong Dong (Caverna do dragão amarelo), mas sabíamos que, após a chegada, ficaríamos abrigados da chuva. Como sempre, mesmo com um clima nada convidativo, entramos no parque durante uma grande pancada de chuva para encontrar outro grande contingente de turistas que esperavam em fila tranquila e que andou até bem rápida. Na maioria dos locais de turismo na China, há sempre uma grande distância entre o portão de entrada até a área nobre. Havia muitas grutas na caverna e para entende-las pegamos várias "caronas" de grupos de turistas, ciceroneados com guias bem treinados. Assim, percorremos mais de 11 km, subimos e descemos mais de 1500 degraus, mais um percurso de barco pelo rio subterrâneo, totalizando uma caminhada de quase 3 horas. Todo o trajeto é ricamente iluminado, mas de gosto, por vezes, duvidoso.
A beleza dessas grutas é indescritível, com sua estalactites e estalagmites de milhões de anos. Raras vezes suas extremidades se aproximam ou se tocam. Para decifrar a sua simbologia, nada melhor que a descrição, muito detalhada dos guias. Suas formas e silhuetas sempre ou quase são comparadas com personagens ou símbolos relevantes do universo imagético chinês.
Na saída das grutas degustamos chá preto em uma aconchegante casa de chá. O heicha (em chinês) também é chamado chá fuzuang, devido à sua cor escura. Ele é produzido principalmente nas províncias de Hunan, Hubei, Yunnan e Sichuan. Na China existem muitos tipos de chá, classificado de acordo com o tempo de sua fermentação: branco, amarelo, verde, vermelho e o preto. O que garante a preferência dos apreciadores, sem duvida, é a adição de Jinhua no seu processamento. Estudos demonstram que suas propriedades possuem alto benefício para o corpo humano. O heicha (chá preto) é uma iguaria de alta fermentação com sabor marcante e aroma peculiar. O relato de sua história nos reveleu histórias de guerras, piratarias, roubos e invejas principalmente, por parte da coroa inglesa. Entre xícaras e chaleiras ouvidos atentos aos relatos de suas ricas funcionárias, em trajes típicos das casas de chá, estávamos aquecidos, secos, relaxados, descansados e informados. O digestivo e delicioso chá preto deixou uma fome nos gaúchos, como depois de sorver duas térmicas de chimarrão. Partimos para o almoço ao redor do parque num restaurante fora do eixo turístico. Apreciamos meus prediletos ovos de mil anos, sopa de cabeça de peixe e um ensopado de frango. Depois, fomos para mais um tracking e curtir a paisagem do rio Yang-tsé, algo que qualquer um não pode deixar de fazer. Essa noite não tivemos companhia do casal e terminamos numa caminhada no comércio, no entorno do hotel. Bares com música chinesa ao vivo, lojas de instrumentos e artesanatos onde adquirimos bolsas que segundo a proprietária seria confecção do própria.
Segunda-feira pós páscoa sem coelhos
Saímos de ônibus, do condado onde estávamos hospedados, depois do habitual desjejum, para o centro da Zhangjiajie. No primeiro instante, a visão do Rio Li (Li Jian) envolta por uma cidade de avenidas largas e um comércio tranquilo, talvez pela hora, e o centro circundados pela recortadas montanhas de carstre. Uma paisagem diferente onde as ruas terminam parecendo entrar nas montanhas verdes e rochosas. O trajeto de ônibus terminou muito próximo de nosso destino que era
Cable Tianmen (o termo é mistura de inglês e mandarim que seria mais ou menos "O Teleférico da montanha Porta do Céu") com seus carrinhos de design moderno e colorido para seis pessoas. O nosso era vermelho, que durante o percurso alternávamos os bancos pois ficávamos frente a frente de 3 pra lá 3 e inevitavelmente os nativos suspeitaram por nossas risadas que entendíamos seu engraçado dialogo mesmo que o dialeto deixasse Márcia com menos agilidade. O sotaque daquela região apaga alguns dos fonemas e até para o meu "chinês instrumental" ficava perceptível. Foram mais de 8km, 40 min de uma subida até o topo da montanha de 1560m. A neblina e o frio faziam os vidros suarem por dentro.
O dia esvai-se muito rápido, quando se passa subindo e descendo montanhas, seja de teleférico, seja de elevador, ou escadarias e escadas rolantes.
Retornamos cansados e com frio. Passamos rapidamente em nosso hotel para trocar por roupas secas e varados de fome e com muita sede por um chá quentinho invadimos o Restaurante Impressão de Hunan do Oeste na verdade o local é parada obrigatória pela organização, pela bela cozinha, musica tipica ao vivo, pela comida com seus sabores, cores e cheiros.
Cardápio:
* Chá de Trigo
* Qiaomai
* Juebaba (uma raiz típica masseirada), faz-se uma farinha dela com uma consistência borrachoide vulcanizado mais pimenta vermelha em pó que acrescentavamos na hora de comer
* Verdura Yajiaoban e alho
* Frango Caipira
* Cogumelos selvagens
Bem, a bebida foi um presente raro que nossos amigos ofereceram em uma garrafa lacrada de uma antiga produção de mijiu que eles não deixaram de ressaltar que era uma bebida de alto preço e alta gradação alcoólica. Reza a tradição que você não pode deixar de beber com os anfitriões e aí a noite ficou quente, e a garrafa e seu néctar foram completamente consumidos enquanto ouvíamos atentamente o Sr. Liu contar uma história sobrenatural ocorrida em 2003, com uma estátua de Mao Tsé-tung. O transporte pela longa estrada entre a montanha Jingang e Nanchang num caminhão que pifou num fim de tarde e parou em Jiangxi ficando a noite toda ao relento sob intensa chuva e frio além da guarda ostensiva dos envolvidos pois afinal contas Mao é ainda o grande timoneiro o herói nacional que nasceu naquela região. Na manhã seguinte, sem a intervenção de mecânico ou picareta local, o veículo funcionou como novo. Os envolvidos, a população local e os dirigentes locais atribuem até hoje como um milagre da Revolução já que Mao é a grande imagem da revolução e da região.
Não dá para esquecer das musicas tocadas por um artista com trajes típicos, tocando dois instrumentos de sopro, o hulu e o shen.
Terça Feira 8 de abril de 2015
Despertamos as 6h30min. Depois de arrumarmos as malas, saímos do hotel. Sem antes, é claro, de enfrentarmos o café radical de todas aquelas manhãs. Às 9h30min, estávamos sentados no ônibus em direção norte para a cidade de Fenghuang. O percurso de quatro horas foi repleto de enormes pontes além de túneis também não menores. Em seu entorno, vales e precipícios de tirar o fôlego, com suas plantações de arroz ao redor dos vilarejos em uma paisagem bela por demais. Nosso ônibus tinha um serviço interessante, onde nosso fiscal era polivalente pois as funções de guia, vendedor de mapas, carregador de malas, dicas de hotel e passeios além garantir passagens para seu retorno nos próximos dias - era tudo com ele. Confirmava tudo por telefone e também ao vivo e à cores.
Dirigímo-nos ao hotel pousada Pessoal de Fenghuang na rua marginal norte à beira do Rio Tuo. Percorrendo as ruas estreitas dessa cidadela milenar amuralhada, chegamos à pousada. O proprietário, um senhor gordo careca e bonachão, recepcionou-nos com um largo sorriso. Forneceu-nos toalhas e roupas de cama, nos apresentou ao nosso aposento, rente ao rio. A edificação do hotel era toda em madeira e bem simples. Causou-nos uma sensação ótima de uma viagem à tempos remotos. Ficamos deslumbrados com aquele quarto onde a sacada e a janela voltadas para o rio se abriam para as mágicas cenas de uma China interior, tradicional e típica das aldeias ribeirinhas. Com suas pontes, pontilhões, barcos, sampanas e chineses vestidos de forma típica que davam ao local uma visão cinematográfica. O bairro onde nos hospedamos é estritamente turístico um patrimonio cultural onde somente existem pousadas, restaurantes e comércios de todo tipo faziam parte daquela redondeza. Somente era possível acessar os arredores quem estivesse hospedado, nativo ou fosse trabalhador daqueles estabelecimentos.
Saímos para a clássica caminhada de reconhecimento do entorno. Andamos em meio de construções e passeios antigos. Até nos depararmos com uma venda de pimentas variadas. Eram pimentas secas, em molho, vermelhas e pretas. O simpático e antigo casal que em rodízio com seu filho administravam o negócio, nos apresentaram os detalhes da sua produção. Soubemos através deles, que dentro da cidadela amuralhada, os antigos habitantes lá não moram mais. Suas casas eram hoje todas comerciais e vivem próximo da localidade, deixando ali apenas seu negócio. Compramos algumas lembranças picantes de fazer qualquer mortal chorar de emoção ou saudade mesmo longe e sem motivos.
Almoçamos no restaurante o Embaixador (Dashi Fandian), onde comemos como diplomatas, pagando um preço como plebeu. A dica foi do nosso senhorio da pousada falando tipo assim: "caminhem pra aquele lado, até sair da muralha, assim estarão fora da área dos turistas onde o sabor e o preço são melhores e vocês vão ver e saborear". Os três pratos típicos que devoramos eram peixe com doufu, capim limão, gengibre, raiz de lótus, alho e cebolinha verde, mais carne defumada (larou), com broto de bambu. Tudo com fortes pimentas vermelhas e arroz para apaziguar o fogo oriental. Sentados no popular restaurante chamado de Embaixador sentindo-se um diplomata tomando um chá preto nobre, olhando pela vidraça vendo uma senhora da etnia Tujia, com seu turbante negro amarrado à cabeça e uma criança em suas costas em um cesto. Essas seguem sua tarde e sua rotina vendendo flores e talvez sonhos que fazem a diferença nas cores e dores daquela parte do dia que quase já é noite. Impossível seria ficar e aguardar a última xícara de chá sem tentar um registro mesmo que sem foco para ter na memória.
O restante da tarde passamos ao longo do rio Tuo, onde uma muralha margeia e faz com que se imagine o rio como um fosso para proteger aula cidade conservada deixando seu aspecto de séculos passados. as casas transformadas em hotéis, pousadas, bares e casas de chá. Os moradores podem transitar livremente pelas portas do sul, norte e leste. Já os turistas podem adentrar pelo portão norte, se apresentar a chave do hotel e o seu recibo de pagamento da diária. Perambulando de volta à hospedaria, dentro da muralha e próximo à banca de vendedores de pimenta, descobrimos um bar e restaurante maravilhoso. O casario era de uma família tradicional local, de mais de trezentos anos chamada Yin. Os simpáticos proprietários estavam tocando jazz, em frente a uma fogueira. Ficamos assistindo com entusiasmo e logo fizemos amizade com eles. Um casal jovem de Beijing radicaram-se na cidade. O rapaz tocava djambe. Outro chamado de Daxiong (Grande Urso) era um devoto budista, gordão e muito simpático. Acabamos nos enturmando e tocamos música até o amanhecer.
Todos os nativos tem uma certa vantagem com o turismo, seja no comercio, serviços ou até mesmo vestidos tipicamente cantando ou dançando como Miao ou Tujia, minorias étnicas principais da região. A cidade de Fenghuang com seus 400 mil habitantes e suas 28 minorias étnicas, nossas fotografias e curtas rechearam nossa tarde de charme e graça.
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